Entrevista a Bruno Benedito
"Futsal é um jogo de paciência para jogadores inteligentes"O que representa a AAC para ti?
Obviamente que se trata de um clube de referência não só para mim, mas para toda a região centro. Represento AAC-OAF acerca de dez anos e é com muito orgulho que o faço, ou fiz,…pelo menos até à época anterior, face à lesão que se prolonga desde o inicio do ano. O sentimento é muito forte quando estamos em campo, mas é muito difícil estar de fora. Grande clube!
Caracteriza-te como jogador….
Sinto-me um jogador com pontos fortes e fracos como qualquer um. A minha evolução como jogador e a minha forma de jogar foi no sentido de ajudar a equipa, ou seja, trabalhar para o colectivo. Adoro pensar o jogo ofensiva e defensivamente, alterar entre o jogo interior, entre linhas e a profundidade, jogar a dois/três toques com grande mobilidade e “alguma velocidade”, entendo-me muito bem a este nível táctico com alguns colegas. Em tempos fui finalizador, agora mais organizador. Dentro do campo sou muito intempestivo, especialmente nos treinos, nos jogos a concentração sobrepõe-se a tudo. Em termos físicos, preciso de estar acima dos 85% para me sentir em condições de cumprir dentro do campo, a intensidade do jogo é muito elevada, caso contrário não rendo.
Sendo tu um jogador com muitos anos de Académica como tens visto a evolução da modalidade dentro do clube…
Quando eu comecei a praticar futsal, na altura futebol de 5, era eu júnior e ainda não havia campeonato na Associação de Futebol de Coimbra, tivemos que entrar no campeonato em Leiria e a fase final realizava-se num dia. Agora temos uma 1ª,2ª e 3ª Divisão com várias séries, Distritais, Taça de Portugal, UEFA CUP. O Futsal foi a modalidade que mais evoluiu nos últimos anos em Portugal. Na Académica o processo tem sido lento, mas penso que agora estamos no bom caminho, as condições de trabalho melhoraram bastante, já temos o Pavilhão quase só para nós e finalmente o equipamento de treino. Os escalões de formação são fundamentais para a continuidade e projecção da modalidade, chegar a uma equipa sénior já com os princípios de jogo assimilados é fantástico e tem-se postado neste sentido. Tornamo-nos uma equipa com personalidade, temos um modelo de jogo, mas podemos ter mais do que um, a complexidade do jogo é cada vez maior, temos de acompanhar esta evolução que não pára, podemos ir muito longe.
Que conselhos julgas puder dar a quem se inicia agora na prática de futsal…
Depende da idade de iniciação,…mas posso transmitir que o Futsal é um jogo de paciência para jogadores inteligentes. Inicialmente desenvolvam a vossa capacidade técnica, exercitem os dois pés, estimulem a criatividade, mas coloquem sempre a equipa em primeiro plano. Em termos tácticos, é fundamental a concentração neste processo do treino, pois é aqui que vão construir todas as aplicações para a situação de jogo e é aqui que nem sempre o jogador faz o transfere…
Como viveste a época de 2004/2005?
Foi uma época em grande, excelente grupo, objectivo de subida à 1ª Divisão quase alcançado. Em termos colectivos tínhamos uma equipa com muito valor que se deveria ter mantido, um misto de experiência e irreverência, mas com muita qualidade, como este ano. Em termos individuais a época correu-me bem, até ao momento em que tive de parar por uma lesão, quase no final da época. Infelizmente quando voltei não estava bem fisicamente. Tivemos muito perto de alcançar o escalão máximo do futsal nacional, teria sido fantástico voltar a jogar na 1ª Divisão, mas com o rendimento da equipa abaixo do normal, falta de sorte e arbitragens comprometedoras, não atingimos o nosso sonho.
Tens estado ausente dos jogos este ano, queres explicar porquê?
Pois essa é uma situação que me deixa cada vez mais em baixo, pois a lesão que tive no final do ano passado, prolonga-se para este ano. E após várias tentativas de recuperação, a dor e o desconforto persistem na hora de jogar, e quando algo desta natureza acontece temos mesmo que parar e tentar perceber o porquê de se tornar desconfortável e até insuportável praticar futsal. Após vários diagnósticos e prognósticos, além da realização de exames, chegou-se à conclusão que se tratava de uma alteração estrutural a nível esquelético, com consequentemente alteração funcional a nível musculo-esquelético, alterando toda a fisiologia da articulação coxo-femural direita (desculpem os termos mas é mesmo assim). O pior é quando esta situação de desconforto se transpõe para o nosso dia a dia, e eu enquanto profissional do exercício físico e não profissional de futsal, tive que fazer um exame de consciência, e faço-o todos os dias com grande mágoa e emoção, de modo a julgar qual seria a melhor situação para mim. Parar e recuperar a lesão que se arrastava há muitos anos.
Como tens visto a nossa participação este ano?
Adaptação à zona Sul não foi fácil, pratica-se um futsal muito meticuloso. É preciso alterar a nossa forma de jogar, e com saída de muitos jogadores e a entrada de outros, assistimos a uma fase de adaptação. Na minha opinião julgo que poderíamos ter feito muito melhor, e vamos fazê-lo na próxima época, temos valor para muito mais. Não há justificação para tantos golos sofridos, pois trabalha-se muito em termos defensivos e temos jogadores com muita experiência, será mérito do adversário? desconcentração na organização defensiva? Ao nível ofensivo, com as equipas do Sul a fecharem-se muito no seu meio campo defensivo, por vezes não temos a paciência necessária para a construção do jogo ofensivo. Temos limitado o nosso sistema de jogo muito ao 3:1 e temos capacidade para variar no 2:2 e o 4:0. Não podemos perder tantos jogos em casa e é preciso maior união no grupo. Não se pode errar neste campeonato.
Avalia o potencial do nosso plantel...
Alguns jogadores muito jovens no inicio do seu percurso na equipa sénior, com irreverência e imaturidade, mas com enorme margem de progressão. Outros com a experiência necessária e uma cultura táctica acima da média, mas todos com muito valor, caso contrário não estariam neste plantel. Sente-se que os atletas da formação vão dar continuidade ao projecto.
Um jogador que admires… Porquê?
João Filipe… já o conheço acerca de dez anos, desde que eu era júnior na académica, trata-se de um jogador muito completo, elevada capacidade técnica, excelente cultura táctica. Excelente colega de equipa. Tem uma enorme carga genética para a prática da modalidade, velocidade, agilidade e grande capacidade anaeróbia. Além disso nunca o vi com uma lesão, está sempre bem fisicamente, ao contrário do que tem acontecido comigo. Fico feliz por ele. Abraço para ele.
Objectivos futuros….
No futsal gostava de me sentir bem para poder voltar a jogar sem dor, estou a trabalhar nesse sentido. Tenho andado afastado dos treinos, pois não é fácil estar ali sem poder treinar.
A nível profissional, com uma licenciatura na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física, actuando como Professor de Educação Física e Personal Trainer, o meu próximo passo será um Mestrado em Exercício e Saúde. E ainda tenho a minha empresa arrancar para o próximo mês, que desde já passo a publicidade, HOMEFIT CLUB, que promove a prática do exercício físico, e não só, ao domicílio.
Melhor momento como praticante de futsal….
Não é fácil identificar o melhor momento, no entanto, é assim, em termos colectivos os títulos conquistados são sempre os melhores momentos alcançados. A nível individual, ainda como jogador dos juniores, nunca mais me esqueço do 1º golo que faço na equipa sénior, na altura a jogar na 1ª Divisão, frente ao Miramar, que era o campeão nacional. Foi um momento muito especial, estávamos finalmente em vantagem frente a uma equipa de topo, por 1-0, nem queríamos acreditar, eu nem consegui festejar o golo, os meus colegas abraçaram-me, ficamos eufóricos. No entanto, logo a seguir um dos piores momentos…
Pior momento…
Pois é neste mesmo jogo, mas já na segunda parte, ainda a vencer por 1-0, “ …numa jogada de envolvimento colectivo, João Filipe, com um passe longo coloca a bola em Paulito, que descaído para o lado direito do ataque coloca de primeira a bola à entrada da área, quem é que aparece, cheio de medo do guarda-redes, Bruno Benedito, que de cabeça atira ao poste, seria o 2-0, matávamos o jogo, no contra-ataque o Miramar faz o 1-1, e acaba por ganhar o jogo por 1-2”,…não dormi nessa noite.
Uma palavra para os teus companheiros da AAC….
Nos treinos comam-se, mas nos jogos unam-se. Força pessoal, vocês são capazes.
Uma palavra para a equipa técnica….
Parabéns por todo o trabalho desenvolvido até ao momento. Não é fácil gerir um grupo, com tanta qualidade e com personalidades tão diferentes. Sem vocês não estaríamos onde estamos.
Uma mensagem para os visitantes deste blog….
Mantenham-se sempre ligados ao futsal pois é uma modalidade apaixonante. E uma palavra a ti também: parabéns pelo teu blog, força para a tua carreira, ainda tens muito para dar, mantém os níveis de confiança elevados.
Obrigada pela oportunidade.
B.I.
Nome: Bruno Jorge Santos Benedito da Silva
Data de Nascimento: 25-05-1978
Equipas: AAC e Real da Conchada
Títulos: Bi-Campeão Distrital de Juniores, Campeão Nacional da 2ª Divisão, Campeão Nacional da 3ª Divisão.
Treinadores: Miguel Tente, Carlos Bem Haja, César Minas, Pedro Maria, Nuno Ponce Leão, Nuno Pinto e Francisco Batista.


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